As neurociências se dedicam ao estudo dos diferentes aspectos do sistema nervoso, englobando suas estruturas e funcionalidades até a bioquímica das células e a biologia molecular. 

Relacionam-se com várias disciplinas, como a neurofisiologia, neuroanatomia, neuropsicologia,psiquiatria, neurologia, entre outras. 

As novas técnicas de obtenção de neuroimagens, principalmente por meio da ressonância magnética funcional e da tomografia computadorizada com emissão de pósitrons, permitem observar o funcionamento ao vivo das estruturas encefálicas, o que até há pouco tempo não era possível. 

Dessa forma, demonstrou-se a correlação dos fenômenos mentais, entre corpo e mente, numa perspectiva dinâmica (DOIN, 2010). 

Essas tecnologias evidenciam a possibilidade de visualizar uma imagem de integração neurológica/psicológica em pleno funcionamento, em tempo real. (LENT, 2001; DAMASIO, 2018).

Para as neurociências, não existe separação entre corpo e mente, pois a influência entre ambos é recíproca. 

A constituição do Eu não deixa de se dar a partir e através do desenvolvimento e entrelaces de processos neurais de diversas partes do encéfalo e do organismo, em associação com as experiências emocionais e relacionais vivenciadas ao longo da vida (DAMASIO, 2012).

Por meio de técnicas de neuroimagem, observou-se que as ativações de alguns circuitos neurais eram acompanhadas, ao mesmo tempo, por experiências psíquicas prazerosas, de entendimento súbito, como algo do tipo: “Nossa, finalmente entendi! ” (KANDEL,1999).

Quando pensamos em fragilidade, fragmentação de aspectos da construção subjetiva dos pacientes que nos procuram com suas dores, seus sintomas, cabe-nos avaliar as possíveis formas e recursos para estabelecer uma comunicação clara e acessível que possa buscar compreender o sentido da linguagem do corpo que demanda cuidado e socorro. 

Na verdade, se o sintoma pode aparecer como um apelo, não há dúvida de que a biologia se movimenta e se articula com nossas vivências e memórias, quer tenhamos ou não consciência desses processos. 

Os sistemas orgânicos estão ligados, intrincados, conversam-se, comunicam-se, estimulam-se ou inibem-se sem nosso conhecimento ou permissão. 

O corpo biológico não é estático diante das experiências vividas. 

Ele se apresenta em constante movimento e transformação, carregando em si nossa singularidade e expressando de alguma forma o que não pode ser dito.

Nesse sentido, os avanços das neurociências trouxeram inúmeras contribuições e continuam contribuindo para o entendimento das relações entre mente e corpo, com descobertas impressionantes a respeito dessa dinâmica articulada em conexões e redes associativas dentro do sistema nervoso, e deste com todo o organismo. 

Não há vida mental ou psíquica sem concomitantes atividades biológicas, físicas e químicas, que ocorrem, se desenvolvem e se expressam de forma absolutamente única e particular em cada sujeito.

Possíveis Intersecções na Prática Clínica

Em vários pontos deste texto, aspectos teóricos foram salientados com a perspectiva de diálogo com a clínica. 

Em nossa prática médica, sintomas no corpo, “vozes do corpo” comumente se apresentam como a única via de expressão de dor, transtorno ou angústia que possam estar presentes e relacionados com a queixa.

Ranña (2007) comenta que o sintoma é também um apelo sem linguagem, da ordem do grito ou do gesto. 

E também aponta que, segundo o pensamento winnicottiano, o paciente com distúrbios orgânicos apresenta uma qualidade particular de resistência e, portanto, demanda um trabalho também singular na transferência. Ele segue afirmando que:  

Os médicos, com frequência, também vivem uma cisão epistemológica, não sendo capazes de considerar os dois aspectos implicados nos estados clínicos, criando uma separação entre o psiquismo e o somático, desconsiderando a intersecção aí existente. (RANÑA, 2007)

Em outras palavras, cremos que a escuta do terapeuta (médico, psicólogo ou psicanalista) deva procurar se descolar da cisão cartesiana e investir na compreensão da linguagem do corpo que o paciente lhe apresenta. 

A clínica psicossomática demanda disposição interna daquele que cuida para o diálogo entre os profissionais e abordagem interdisciplinar.

Ainda em relação ao encontro clínico, vale ressaltar a importância da construção de um espaço terapêutico, que ao longo do tempo vai se constituindo como uma espécie de “prótese psíquica” que integra, na transferência, aspectos frágeis, pouco desenvolvidos e fragmentados do paciente (RANÑA, 2007).

Diante de tudo que já foi explanado, como poderíamos articular a escuta terapêutica com a atividade clínica nos dias atuais?

O que podemos observar na prática clínica é que aqueles que nos procuram, na maioria das vezes, já passaram por diversos profissionais, acessaram informações na internet, na incessante busca por respostas e alívio de seus sintomas. 

Em tempos em que a cultura do imediatismo promove o acesso digital a quaisquer informações em questão de segundos, fica a pergunta: como acolher, ouvir aqueles que nos procuram com discursos tão distanciados da subjetividade, demandas de prontidão e resoluções práticas o quanto antes? 

A contemporaneidade, com seus aspectos sociais e culturais, influencia o entendimento sobre o adoecer, a forma como é concebido e compreendido pela sociedade.

A cultura também impacta nas formas de busca e acesso ao conhecimento das abordagens terapêuticas, bem como em relação à ajuda que pode ser oferecida pelos profissionais.

Pensadores e pesquisadores do passado que propuseram, com base nos desafios da clínica, flexibilização das técnicas e abordagens terapêuticas de seus campos do saber têm muito a contribuir na atualidade. 

A elasticidade da técnica proposta por Sandór Ferenczi reflete seu pensamento criativo e inovador, na expectativa de que “os artistas” (terapeutas) poderiam trazer novas perspectivas e progressos. 

Ferenczi fala ainda sobre a ideia do “tato” no ato psicanalítico, o “sentir com”, o “falar com”; enfoca a importância da empatia e da afetividade, buscando uma comunicação em que a linguagem do paciente pudesse transitar mais livremente, e o profissional pudesse estar mais sensível à escuta (FERENCZI, 1927; KUPERMANN, 2008). 

A arte e a sensibilidade do terapeuta se associam à empatia e à capacidade de não considerar seu narcisismo afrontado e/ou atrelado à onipotência do suposto saber. “A modéstia do analista e/ou profissional não é, portanto, uma atitude aprendida, mas a expressão da aceitação dos limites de nosso saber” (FERENCZI, 1927).

Concebendo que as manifestações psicossomáticas podem se apresentar como tentativas de “cura psíquica” quando os conflitos, a dor, os sofrimentos não foram ou não puderam ser expressados, a presença sensível do terapeuta é de extrema valia e importância para a evolução do processo terapêutico.

No encontro com os pacientes, existe a possibilidade de criação e/ou recriação da história psíquica, que pode ser transformada, ressignificada, o que pode deixar o corpo “livre” das tentativas incessantes de se reconciliar com a dor psíquica (McDOUGALL, 2000a).

Diante dessas colocações, apresentamos a seguir alguns casos com o intuito de mostrar experiências clínicas que contenham aspectos referentes à elasticidade da técnica e à utilização de informações e conhecimentos mais “concretos” das neurociências no encontro terapêutico.

Nesse sentido, consideramos fundamental haver espaço não só para ouvir o corpo, mas também para falarmos sobre ele. Ainda que ele seja apresentado com o auxílio de diagramas ou desenhos, com explicações anatômicas, fisiológicas ou neurocientíficas para a compreensão das queixas somáticas e dos sintomas, é possível que, com base nesta linguagem, condições para algum grau de representação simbólica deste corpo possam emergir.

Em substituição ao paradigma de uma biologia estática e pragmática, partimos para a concepção de uma biologia viva e dinâmica, que alcança, mobiliza e transforma células, sistemas orgânicos e a própria genética, de forma absolutamente única, particular e individualizada.


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